História do windsurf nos Jogos Olímpicos e a atuação brasileira

Publicado em 29/05/2019 00:00
História do windsurf nos Jogos Olímpicos e a atuação brasileira

 

História do windsurf nos Jogos Olímpicos e a atuação brasileira

 

Fonte:  https://www.abws.org.br/post/hist%C3%B3ria-do-windsurf-nos-jogos-ol%C3%ADmpicos-e-a-atua%C3%A7%C3%A3o-brasileira

 

Autor: Heitor Marques em 21/01/2019

 

O primeiro campeonato olímpico de windsurf foi nos Jogos de 1984 em Los Angeles com a classe Windglider

 

O PRIMEIRO EVENTO

Foi no ano de 1984 que o windsurf passou a integrar os Jogos Olímpicos, em Los Angeles, sendo mantido até hoje. Só havia regata masculina e a prancha Windglider, um modelo one-design (quando todo mundo utiliza o mesmo equipamento), foi escolhida como oficial. A Windglider usava vela de 6,5 m² e não havia trapézio nem alças para os pés. A bolina pesava cerca de 4 Kg, era removida manualmente e carregada onde o atleta conseguisse, geralmente apertando debaixo do braço e se machucando! O primeiro medalhista  foi Stephan Van Den Berg dos Países Baixos e Karen Morch, do Canadá, foi a vencedora do evento feminino apenas de exibição. Nesta época o esporte já bombava no Brasil. Em 1980 a novela Água Viva da TV Globo vendia a cultura náutica em seus episódios e tinha em sua abertura jovens praticando windsurf, dando um enorme impulso para o esporte. Os campeonatos foram surgindo em todo lugar e a cada dia mais profissionais apareciam com potencial para a Olimpíada. Foi o caso de Carlos Rossi, Marc Erzberger e Felipe Barreto, este último com tradição familiar de vela. Esses atletas do Rio de Janeiro concorreram na pré-olímpica de 1982, também em Los Angeles. No entanto, Carlos desistiu das competições e tomou um outro rumo pessoal na vida. Marc e Felipe seguiam firme, mantendo participação em importantes campeonatos na Europa. Mas Marc era suíço e não conseguiu se naturalizar brasileiro. Após boas colocações, acabou retornando à Suíça para ser seu representante nos Jogos, fechando um 24º lugar. Ainda na Europa, Felipe conheceu o Fred Ostermann, criador da Windglider e passou a fazer parte de sua equipe de atletas. Felipe melhorava muito suas colocações a cada dia, mas nas vésperas dos Jogos acabou se envolvendo numa confusão com outro velejador e foi punido pelo Comitê Olímpico. Desta forma, o Brasil ficou fora da estreia de 84. Em 1988, nos Jogos de Seul, o Comitê Olímpico Internacional (COI) alterou o modelo das pranchas para a Lechner Divisão II, com vela levemente maior (6,7) mas agora com casco de 3,9 m de comprimento e arredondado por baixo, lembrando mais uma canoa do que uma prancha. A classe levava o nome do seu desenhista, George Lechner, (pronuncia-se liek-naer) e tinha uma excelente performance no contravento, mas era bem mais difícil manter o equilíbrio em mar agitado e na perna de popa. As regatas aconteceram na cidade coreana de Busan, mas um pequeno tufão atingiu a região levando ao cancelamento de regatas de diversas classes, muitos equipamentos quebrados, DNFs e protestos. As ondas do swell eram tão grandes que apenas 19 dos 45 participantes completaram a quinta regata de windsurf, dentre eles o George Mulim Rebello (Meu Garoto), nosso primeiro atleta olímpico de windsurf. Meu Garoto velejava com muita garra e dedicação e relata que na perna de popa o competidor da frente desaparecia de sua vista ao entrar nas valas das ondas de mais de quatro metros. Completando todas as regatas mesmo com condições tão adversas e sobre uma prancha de casco redondo, Meu Garoto cravou um 16º lugar em Busan. George começou a velejar pela influência do pai que gostava de vela e o levava como proeiro de Laser já aos oito anos de idade. Seu pai foi o construtor e primeiro diretor do Iate Clube de Búzios, local que se tornou um celeiro de atletas de windsurf. Meu Garoto convenceu o pai a comprar sua primeira prancha na loja do Barão Wind (BRA-117) em 1979, ainda adolescente. (o Barão foi o primeiro presidente da então ABPV - Associação Brasileira de Prancha a Vela, antecessora da ABWS). Daí em diante, o crescimento profissional do Meu Garoto foi orgânico, motivado pela paixão pela vela e somado à sua disciplina de treinos. Barcelona sediou os jogos de 1992 e a prancha sofreu algumas modificações, passando a se chamar Lechner A-390: o trilho e a bolina vieram mais para trás da prancha, a vela aumentou para 7,3 e teve um ganho de performance com o uso do camber da Neil Pryde (mecanismo que desliza as talas sobre o mastro e aumenta a pressão do vento). O formato da vela, que era mais próximo de um triângulo isósceles, passou a ser mais próximo de uma asa, desenho pouco modificado até nossos dias. Este evento também inaugurou a participação feminina, sendo o ouro levado pela Barbara Kendall, irmã de Bruce Kendall, que já tinha subido nos dois pódios anteriores. O Brasil também teve sua primeira atleta olímpica, a Christina Mattoso (BRA 28), que fechou o 17º lugar nesse evento.

 

 

Atleta em barco de apoio em Barcelona 1992. Note o casco arredondado da prancha Lechner. Foto: olympic.org

 

  A campanha de participação da Chris começou em 1987, quando ela conseguiu um 5º lugar nos Jogos Pan Americanos em Indianápolis. Em 1988 ela venceu o Sul Americano em Buenos Aires sob condições de muito vento. Fazendo parte da Equipe Olímpica, veleja em Niteroi e na Baia de Guanabara junto com o Meu Garoto e outros feras da vela como Torben e Lars Grael. Perguntada sobre o tratamento das mulheres no ambiente das competições, Chris relata que de modo geral sempre foi bem respeitada entre os colegas e que a maioria dos campeonatos tinha prêmios e participações equivalentes de homens e mulheres, uma prova da irmandade que o esporte promove. Paralelamente à história olímpica, em 1991, um ano antes de Barcelona, no meio de toda aquela movimentação de velas no Rio de Janeiro uma forte lembrança do pai velejando no interior da Bahia urgia em um garoto mirrado de 11 anos. Quando sua família se mudou para esse celeiro do windsurf, aquela lembrança despertava um gigante no esporte. Ainda bebê ele chorava na praia para subir na prancha do pai, mas o material da época não dava para crianças muito pequenas. Você saberá quem é esse garoto nove anos depois, em Sidney.

 

A ERA MISTRAL

Entre 1996 e 2004 a Mistral One Design passou a ser a classe adotada pelo COI. Esses modelos retornavam ao casco plano, mais ligado às raízes surfistas do windsurf. A performance de contravento conseguiu ser mantida com o aperfeiçoamento dos shapes, materiais e das bolinas, as pranchas singravam bem ao orçar e agora planavam mais no través, além de oferecerem um velejo bem mais controlável. A Chris continuou como representante feminina em Atlanta/1996, e o novo representante masculino foi o Yuri Taguti. Yuri começou a velejar em Cabo Frio no verão de 1981. Depois de cair de moto, a mãe disse que se ele quisesse cair seria na água e por isso começou a velejar. “Fiquei tão fissurado quando dei minha primeira planada que em 84 fui campeão no Sul Americano na Argentina”, relata o atleta. Ao conseguir classificar o Brasil na pré-olímpica de Miami, garantia a vaga para Atlanta. “Para conseguir entrar numa olimpíada é preciso ralar muito, participar de dezenas da campeonatos, velejar em lugares com clima que maltrata e tal… Quando você pensa que está bem treinado e ao chegar lá e ver que o treinamento dos outros países é muito melhor desanima um pouco… o grego (Nikolaos Kaklamanakis) que ganhou Atlanta em 96 já estava morando lá desde 94, se acostumando com todo o ambiente.” Em 2000, em Sidney, Bimba assume a representação brasileira e com maiores vislumbres de medalha por conta de sua carreira meteórica nas pré-olímpicas. Lembra do garoto de 1991? Pois é! Quando o moleque subiu na prancha, com apenas um mês os amigos já diziam que ele iria para a olimpíada, e foi! Bimba passou a ganhar todos os campeonatos que participava. Ganhava dos garotos mais velhos e com 17 anos já ganhava dos veteranos. Nessa idade, foi Campeão Mundial Júnior, ganhou a pré-olímpica e daí em diante simplesmente se tornou o campeão hegemônico de Raceboard no Brasil até os dias de hoje! Não é exagero, a tabela de títulos de Bimba é gigante e até ele já perdeu a conta. Bom, voltando ao assunto olímpico… Bimba ficou em 15º em Sidney e sua hegemonia o levou a mais quatro olimpíadas. Nos Jogos de 2004 em Atenas, os brasileiros rasparam o pódio olímpico com a atuação de Bimba, que após algumas polêmicas acabou sendo classificado em quarto. Naquele ano a feminina ficou com Carolina (Mendelblatt) Borges, uma atleta brasileira-portuguesa que acabou integrando a flotilha lusitana após os Jogos. Em 2008 Bimba raspou o pódio novamente, ficando em quinto lugar, e na feminina agora entrava outra atleta de dupla nacionalidade: Patrícia Freitas, que nasceu nos EUA mas foi criada no Rio de Janeiro.

 

A ERA RS:X

Para os Jogos de 2008, em Pequim, a classe sofreu uma drástica alteração, passando a adotar os modelos RS:X desenvolvidos pela gigante dos esportes náuticos Neil Pryde Group. As velas passaram a ser 9,5 para homens e 8,5 para mulheres e as pranchas meio que misturaram formas da classe Fórmula Windsurf (pranchas largas) com as longas linhas tradicionais da Classe Raceboard. O elogio desse shape é que “funciona” em extremos de condições, diminuindo a probabilidade de cancelamento de eventos por conta do tempo e do mar. Na outra ponta, outros críticos acusam de ser um shape “pato”, que não funciona bem em nada. Independente do shape ser bom ou ruim, o clamor uníssono dos velejadores tem sido sempre em como o COI e a ISAF definem a classe olímpica ao longo dos anos, escolhendo apenas um fabricante ao invés de um conjunto de características que pudessem ser seguidas por vários. De fato, a escolha de apenas um fabricante oficial eleva o preço dos equipamentos e diminui a popularidade do esporte. Mas bem melhor que falar da RS:X é que em 2008 o Brasil tem uma nova representante: Patrícia Freitas. Ela começou no wind por acaso. A irmã, que hoje é advogada, praticava com dedicação e ela, ainda criança, ficava sentada no clube esperando porque não tinha quem cuidasse dela em casa. Com o tédio da espera e uma boa conversa do professor Gustavo Carilo, resolveu ir para a água também e mostrou-se uma grande revelação. Em junho Patrícia ficou em 3º no Mundial da Juventude e em agosto enfrentou sua primeira olimpíada. Com apenas 18 anos, integrou a comitiva no meio de grandes nomes da vela brasileira e disputou com as feras que meses antes eram apenas figuras distantes em notícias de jornais, como Alessandra Sensini e Barbara Kendall. No meio das melhores do mundo, a garota que a pouco tempo estava sentada entediada no clube, com toda a dificuldade de técnico e patrocínio, vai lá e crava um 18º lugar! Até os Jogos seguintes, dedicada, mais madura e com mais apoio, a expectativa  aumentava. Patrícia teve excelente colocação no pré-olímpico meses antes dos Jogos de Londres, mas no dia da disputa os equipamentos apresentavam problemas e ela não conseguia trocar por conta de uma preterição do mantenedor do estoque. Mesmo assim, fechou Londres em 13º, melhor cinco posições que a olimpíada anterior.

 

 

Bimba e Paty são os atuais atletas olímpicos brasileiros. (arquivos pessoais)

 

Em 2012 em Londres, Bimba fica um pouco mais afastado do pódio, levando um nono lugar. Por outro lado, Patrícia Freitas faz o melhor desempenho da história do feminino brasileiro,  ficando em 13º. Os Jogos seguintes assumiram um gosto especial para os brasileiros, pois aconteceram em casa, no Rio de Janeiro. Bimba e Patrícia estavam em excelente forma e já tinham uma boa bagagem dos eventos anteriores. Patrícia esquentou os ânimos quando chegou em 4º na 3ª regata e em seguida em 2º na 4ª regata. As seguintes não foram promissoras, mas na 8ª ela chegou em 1º. Já era difícil de atingir o pódio, mas deixou os torcedores roendo as unhas. Já Bimba oscilava entre os 10 colocados nas três primeiras regatas, ficou em 3º na quarta, desceu muito nas intermediárias e voltou a subir nas últimas. Para os dois atletas, ainda não foi essa a vez de subir no pódio. Bimba ficou em 7º e Paty em 8º lugar. Todos os atletas entrevistados relataram que se profissionalizar é muito difícil no Brasil. Tanto sobre grana quanto sobre as formas de preparação. Patrícia, por exemplo, passou por sete técnicos durante sua preparação para os Jogos do Rio. Bimba, ao atuar como técnico para a equipe chinesa em 2018, ficou impressionado com a quantidade de materiais, atletas e estrutura que é dedicado pelo país. No windsurf o Brasil não ficou de fora em nenhuma olimpíada desde sua estreia, mas o mérito maior é de cada um desses atletas apaixonados que venceram tantas barreiras para estar na maior de todas as competições.

 

LIÇÕES APRENDIDAS - O MELHOR SEMPRE VENCE?

Todas essas histórias de desempenho, garra e decepções nos fazem pensar no significado de ganhar uma medalha. Será que cravar o ouro realmente significa que o atleta é o melhor do mundo, que tem mais técnica que os demais? Ou será que essa corrida apenas define que uma infinidade de variáveis convergiram naquele momento para, entre os melhores do mundo, estabelecer o infungível título do ouro? Consideremos algumas diferenças recentes entre os campeões olímpicos. Nos jogos de 2008 o campeão Tom Ashley (NZL) ganhou do francês Julien Bontemps por apenas um único ponto. Se você entender como as pontuações de regatas são feitas, durante várias baterias, entenderá também que essa diferença é o mesmo que dizer que seu bolo perdeu o MasterChef porque tem um grama a mais de chocolate na massa que o de seu adversário. Em síntese, esses dois atletas, naqueles dias, naquelas regatas, podem ser considerados absolutamente empatados. Esse mesmo empate técnico aconteceu nos Jogos de Atenas quando Bimba ficou em 4º lugar. O primeiro colocado fechou 42 pontos, enquanto o segundo 52, o terceiro 53, o quarto 54 e o quinto 73. Podemos assim seguramente dizer que houve um empate técnico do segundo ao quarto lugar. Mas aí surge então a crueldade das competições: apenas um leva o ouro. Já em 2012, Dorian van Rijsselberghe (NED) ganhou o ouro com folga de duas regatas, com diferença de 26 pontos do segundo colocado, e repetiu o feito em 2016 com 27 pontos de diferença, ambos contra Nick Dempsey (GBR). Essa enorme diferença pode parecer que o Dorian é um super atleta frente aos demais. Mas no mundial de RS:X de 2013, em Búzios, o próprio Nick ganhou do Dorian. No de 2016, mesmo ano da dobradinha do Dorian nas olimpíadas, em Eilat/Israel, Piotr Myszka (POL) ganhou dele, que ficou em segundo sem ter completado nenhuma das regatas em primeiro lugar. Dorian e Kiran Badloe empataram com 61 pontos, ficando a prata com Dorian pela regra de descarte da pior regata, enquanto o Nick concluiu o quarto lugar com 63 pontos, apenas 2 a mais. Esses números tornam claro que de fato são atletas excepcionais, estão entre os melhores do mundo. Mas também deixa claro que não podemos determinar o melhor dentre eles pela consecução do ouro, essa é apenas uma conquista do momento (primeira lição). Estar mentalmente bem, conseguir perceber detalhes do ambiente, ter a sorte de entrar numa lufada de vento, estar no momento sem qualquer desconforto físico… são tantas variáveis que fazem esses gigantes passarem na frente um do outro, às vezes por poucos pontos, às vezes por muitos. Entre essa turma, ganhar uma olimpíada está muito mais para um prêmio de psicologia do que para um de atletismo. (segunda lição) Olhando agora para a trajetória brasileira, não só no windsurf, a expressão popular muitas vezes mostra falta de consideração com os grandes feitos e esforços desses atletas por não terem trazido uma medalha ou por ter terem “APENAS” passado perto do pódio. Falta de consideração porque simplesmente ingressar numa olimpíada já é um feito raríssimo. Quantos entre tantos e tantos atletas conseguem isso? Quantos anos de dedicação são necessários para simplesmente estar entre esses gigantes? Há quem diga que esporte é pura diversão, por isso seria uma vida fácil porque fazem por paixão. Mas a verdade é que esporte de alto nível só existe ao se juntar a paixão com a dedicação, essa é a terceira lição. A paixão é o combustível da dedicação, mas é preciso compreender bem o significado desta última. Dedicação envolve tanto disciplina de treinos quanto se abster de vários confortos durante a vida. Mas o aspecto mais difícil dessa palavra envolve vencer as barreiras financeiras. Para você simplesmente existir no cenário de campeonatos mundiais e produzir algum resultado que possibilite conseguir um apoio real, são necessários pelo menos R$ 100.000,00 por ano somente para despesas de equipamento, viagens e inscrições (sem contar o necessário salário do atleta e os custos do técnico, fisioterapeuta, nutricionista, preparador físico...). Para chegar a uma olimpíada, estamos falando de um custo de meio milhão de reais no quadriênio para circular entre os mundiais e os pré-olímpicos. E a medalha de ouro, que vale cerca de US$ 600,00, não paga um mês dos custos :^/ Como qualquer pessoa se sente motivada a fazer melhor quando recebe um elogio, procure fazer o mesmo com as conquistas desses atletas. Sentindo menos cobrança crítica por estar numa final pode ser crucial para que o cobiçado ouro venha, mesmo sendo algo de valor relativo. Assim, que tal aproveitar que você chegou ao final deste longo artigo e fazer algo valioso: enviar uma mensagem de agradecimento para seus atletas favoritos por toda a dedicação e entrega que fizeram?

 

 

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Entrevistados: Bimba, Felipe Barreto, Patrícia Freitas, Christina Matoso, Meu Garoto, Yuri Taguti. 

 

Bons ventos a todos,

 

Carlos Jürgens

  

 

 

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